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Heroin chic: quando a magreza volta a ser tratada como sinônimo de saúde

Nos últimos meses, um termo antigo voltou a circular em discussões sobre moda, comportamento e saúde: heroin chic.

A expressão ficou conhecida nos anos 1990 para descrever uma estética baseada na extrema magreza. Rostos muito finos, ossos aparentes, aparência frágil. Na época, esse visual acabou sendo associado a elegância, controle e disciplina corporal.

Com o tempo, esse tipo de referência perdeu espaço e abriu caminho para conversas mais amplas sobre diversidade de corpos. Ainda assim, profissionais da área da saúde e observadores da cultura têm apontado sinais de que a valorização da magreza extrema pode estar voltando a ganhar espaço em redes sociais, campanhas de moda e discursos sobre estética.

Quando um padrão visual passa a ser associado automaticamente à ideia de saúde, a conversa sobre o corpo tende a ficar simplificada demais. E o corpo humano raramente funciona de forma simples.

O que o espelho não mostra

Magreza não é diagnóstico.

Algumas pessoas são naturalmente mais magras e isso pode ser perfeitamente saudável. O problema surge quando a aparência passa a ser usada como principal critério para avaliar o próprio corpo.

Equilíbrio hormonal, massa muscular, metabolismo, qualidade do sono e níveis de energia são elementos fundamentais da saúde — e nenhum deles pode ser avaliado apenas pelo espelho.

Esse ponto é importante porque a pressão estética pode influenciar diretamente a forma como muitas pessoas passam a se relacionar com alimentação, exercício e peso.

Um problema que já afeta milhões de pessoas

No Brasil, os transtornos alimentares já representam um desafio relevante para a saúde pública.

Estimativas reunidas pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) indicam que cerca de 15 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de transtorno alimentar, incluindo anorexia nervosa e bulimia.

A anorexia nervosa, em particular, é considerada uma das doenças psiquiátricas mais graves. Dados compilados pela própria ABP apontam que aproximadamente 1% da população brasileira apresenta anorexia, enquanto cerca de 1,5% vive com bulimia.

Além disso, a anorexia apresenta uma das maiores taxas de mortalidade entre transtornos psiquiátricos. Estudos citados pela associação indicam que a taxa de mortalidade pode chegar a 20%, o que torna essa condição especialmente preocupante.

Os registros de atendimento também mostram um crescimento na busca por ajuda. Informações do Sistema Único de Saúde (SUS), vinculadas ao Ministério da Saúde, indicam que os atendimentos relacionados à anorexia passaram de 352 casos registrados em 2020 para 683 em 2024. No mesmo período, os atendimentos por bulimia aumentaram de 101 para 183 registros.

Embora esses números não representem todos os casos existentes no país, eles ajudam a revelar um aumento na procura por tratamento e maior reconhecimento do problema.

Um impacto que começa cedo

Entre adolescentes, o cenário também chama atenção.

Estudos internacionais citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que até 2% das meninas adolescentes podem desenvolver anorexia nervosa. Quando se observam comportamentos alimentares disfuncionais de forma mais ampla, estimativas globais apontam que um em cada cinco jovens entre 6 e 18 anos apresenta algum tipo de transtorno alimentar ou relação problemática com a alimentação.

As mulheres jovens continuam sendo o grupo mais impactado.

Esse contexto ajuda a entender por que padrões estéticos muito restritivos podem ter efeitos que vão além da aparência. Quando a magreza passa a ser tratada como prova de disciplina ou autocontrole, muitas pessoas acabam entrando em ciclos de restrição alimentar, compensação com exercício físico e vigilância constante sobre o próprio corpo.

Saúde feminina não pode ser reduzida a um padrão visual

A discussão sobre o retorno de padrões como o heroin chic não é apenas uma questão estética.

Ela revela algo mais profundo: a forma como o cuidado com o corpo feminino ainda é frequentemente orientado por expectativas visuais.

Mas saúde não se mede apenas pelo peso.

Ela envolve funcionamento metabólico, equilíbrio hormonal, preservação de massa muscular, qualidade do sono, níveis de energia e bem-estar ao longo da vida.

Quando o cuidado é guiado apenas por um ideal estético, existe o risco de ignorar sinais importantes que o corpo tenta comunicar.

Por isso, a conversa sobre saúde feminina precisa ir além da aparência e considerar as diferentes fases do corpo, suas transições e suas necessidades ao longo do tempo.

No Instituto Dela, o cuidado parte justamente desse princípio: olhar para o corpo como um sistema integrado, com estratégia e responsabilidade.

Porque um corpo menor nem sempre é um corpo mais saudável.

Instituto Dela

Você bem em todas as fases.

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